A austeridade fracassou

Com a palavra um Nobel em Economia

Por Paul Krugman

Há dois meses, quando Mario Monti deixou o cargo de premiê da Itália, a revista britânica The Economist afirmou: "As próximas eleições serão, acima de tudo, um teste de maturidade e realismo dos eleitores italianos". Uma atitude amadurecida e realista seria, ao que se supõe, recolocar Monti em seu cargo. A situação, porém, não é boa.

O partido de Monti deve ser o quarto mais votado - atrás de Silvio Berlusconi e do comediante Beppe Grillo. Na realidade, Monti foi o procônsul instalado pela Alemanha para implementar a austeridade fiscal numa economia já fragilizada. Nos círculos políticos europeus, a disposição para persistir numa austeridade sem limite é o que define a respeitabilidade. Isto seria correto se a austeridade funcionasse, mas não funciona.

Longe de parecerem maduros ou realistas, os defensores dela se mostram cada vez mais petulantes e equivocados. Quando a Europa começou sua obsessão pela austeridade, as principais autoridades minimizaram os temores de que o corte violento dos gastos e a elevação dos impostos em economias deprimidas pudessem aprofundar a depressão. E insistiram que, na realidade, essas medidas impulsionariam a atividade econômica inspirando a confiança do público.

No entanto, a confiança não se materializou. As nações que optaram por impor rigorosas medidas de austeridade sofreram profundas crises econômicas e, quanto mais rigorosa a austeridade, mais profunda a crise. Na realidade, essa relação tem se mostrado tão forte que o FMI, num impressionante ato de mea culpa, admitiu ter subestimado os prejuízos que ela infligiria a alguns países.

Fracasso. Por outro lado, a austeridade sequer atingiu seu objetivo mínimo de reduzir a carga da dívida. Em vez disso, os países que impuseram medidas extremamente austeras registraram um aumento da dívida em relação ao PIB, porque o declínio de suas economias ultrapassou a redução dos juros dos empréstimos.

Como a política de austeridade não foi contrabalançada por medidas que ampliassem a base monetária para estimular o crescimento econômico em outros países, a economia europeia voltou a entrar em recessão, com um nível de emprego ainda alto.

A única notícia boa é que os mercados de títulos se acalmaram em grande parte graças à disposição do Banco Central Europeu de comprar títulos da dívida pública sempre que for necessário. Consequentemente, o derretimento financeiro, que poderia destruir o euro, foi evitado.

No entanto, isto não representa nenhum conforto para os milhões de europeus que perderam seus empregos. Considerando tudo isto, poderíamos esperar das autoridades europeias uma reconsideração e algum sinal de flexibilidade. Entretanto, elas decidiram insistir ainda na austeridade como único caminho.

Em janeiro de 2011, Olli Rehn, vice-presidente da Comissão Europeia, elogiou os programas de austeridade de Grécia, Espanha e Portugal. Ele previu que o programa grego produziria "resultados duradouros". Desde então, o desemprego cresceu nos três países e, em dezembro, Rehn publicou o artigo A Europa precisa persistir no caminho da austeridade.

A resposta de Rehn aos estudos que mostravam que os efeitos negativos da austeridades são muito maiores do que se previa foi enviar uma carta aos ministros das Finanças e ao FMI declarando que esses estudos eram perniciosos, porque ameaçavam minar a confiança.

Desestabilização. Voltando ao caso da Itália. Apesar de todos os problemas, o país aplicou severas medidas de austeridade como mandava a receita. Como resultado, viu sua economia encolher. Os observadores estão apavorados com as eleições da Itália - com razão. Mesmo que o pesadelo de uma volta de Berlusconi não se concretize, uma forte votação em Berlusconi, Grillo ou em ambos desestabilizaria não apenas a Itália, mas a Europa.

É preciso lembrar, porém, que a Itália não é a única nessa situação. O número de políticos desacreditados aumenta sem parar e o motivo é o fato de que os europeus respeitáveis não admitem que as medidas sejam um fracasso. Se as coisas não mudarem, as eleições italianas serão apenas um prenúncio da perigosa radicalização que virá.

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